Ligado em "A Liga".

Por Renato Kramer (do portal Folha.com)

"A cada quinze dias, uma pessoa muda de sexo no Brasil".
Esta foi uma informação que nos trouxe "A Liga", atração de todas as terças-feiras, às 22 horas, na Band. É um programa jornalístico que trata de temas importantes, com um conteúdo de grande significado político-social. No episódio de ontem, "A Liga" trouxe à baila o difícil e delicado universo de um dos mais complexos 'transtornos de identidade de gênero' - o transexualismo.

O humorista Rafinha Bastos deu início ao programa entrevistando o deputado federal Jean Wyllys - vencedor do "Big Brother Brasil 5". Tanto o entrevistado quanto o entrevistador foram muito felizes em suas perguntas e respostas. Rafinha Bastos abordou tópicos essenciais, com elegância e desenvoltura. Coisas que a grande maioria dos telespectadores gostaria de saber e que dificilmente teriam a oportunidade de esclarecer.

Questões como o porquê da violência contra aquele que tem uma 'orientação sexual' diferente; a diferença entre 'identidade de gênero' e 'orientação sexual'; a que atribuir o fato de que há famílias que realmente 'aceitam', quando isto ocorre com parentes seus - que evolução seria esta? E ainda, a eventual maior aceitação da homossexualidade no Brasil como um todo.

O deputado Jean Wyllys, por sua vez, respondeu com clareza e objetividade, demonstrando um grande domínio no assunto e muita facilidade de se expressar e se fazer entender. Quanto à questão de Rafinha Bastos se o Brasil está querendo aceitar mais o homossexual, se está evoluindo, o deputado mais uma vez não se fez de rogado. "Sim, está... apesar de grupos endinheirados, que querem se passar pela maioria, estarem tentando evitar essa evolução com medo de perder privilégios!", afirmou com segurança.

Cada repórter do programa foi em busca de uma história de vida. O rapper Thaíde acompanhou Takeo, que nasceu Regina, mas que logo de início confessa: "sempre fui um menino!". Ele confidencia também que sua maior dificuldade ainda é com os banheiros. "Já levei vassouradas no banheiro feminino de um shopping e no masculino me perguntaram - e aí, veio ver como é que é?!". E é bastante seletivo: "minhas namoradas são bonitas, de feio basta eu".

A repórter Débora Villalba foi até a cidade da Lapa, no Paraná, acompanhar o caso de Brenda. O seu nome verdadeiro ela não confessa. Sempre sorridente, com um sotaque paranaense carregado e cheia de simpatia, Brenda conta todo o seu drama com leveza e naturalidade. "Quando pequena eu tentei entrar no seminário. Mas o padre que era o meu orientador percebeu como eu era e sugeriu que eu fosse procurar o meu caminho". Villalba pergunta para a mãe de Brenda, Maria Sueli, como foi para ela aceitar o fato. "Um médico me orientou que eu procurasse um psiquiatra... mas me avisou que não ia adiantar. O negócio é pegar e aceitar e pronto!", concluiu Maria Sueli. Atualmente, Brenda é professora de adolescentes e é muito respeitada em sua escola. Um colega seu de magistério explicou: "é que ela se dá o respeito!".

A repórter Sophia Reis foi à Estância Velha, no Rio Grande do Sul, para conhecer de perto a Juliana (nascida Jean), que estava prestes a realizar a sua cirurgia de readequação sexual. Para a mãe, também de nome Maria, não foi fácil aceitar essa questão. Mas aos poucos foi cedendo. "Só não consigo chamar ele de 'ela'...pra mim é ele, ele". Para Juliana, o mais surpreendente foi a aceitação maior por parte do seu pai. Espantou-se ao ouvir as suas sábias palavras: "tu não escolheu ser assim!"

Enquanto isso, o humorista Léo Lins (do "Agora é Tarde", também da Band) teve a difícil e desafiadora incumbência de acompanhar o travesti Renata, que veio de Manaus para São Paulo depois que sua mãe o expulsou de casa. Para tal, precisou ir às compras, sempre sob a consultoria de Renata. Foram ao centro de São Paulo e compraram do sapato à peruca. Peruca que, diga-se de passagem, lhe caiu muito bem, pois tratava-se de uma chanel curtíssima, com 'cabelos mais negros que a asa da graúna' - como já disse José de Alencar sobre os cabelos de Iracema - realçando os seus grandes olhos azuis.

Além de 'tirar a sobrancelha', raspar os pelos dos braços, aprender a andar de salto alto e "aquendar a neca" (linguagem pertencente ao grupo em questão) numa calcinha mínima, Léo Lins - em sua ânsia de ir até o fim do desafio, foi para a calçada oferecer os seus 'serviços sexuais', numa minissaia branca justa. Pois não é que apareceu um cliente? "É osso", como diria o Sargento Xavier (Anderson Di Rizzi) de "Morde e Assopra"! Tudo pelo profissional. O cliente em potencial: "Quanto é o programa?" Léo Lins, agora "Amanda Secrets", responde sem muito traquejo: "quanto? É... tá R$ 70,00 no drive in e R$ 100,00 no hotel. Léo só se esqueceu de um detalhe essencial: não trocou a voz! Falou com voz de homem. O cliente se foi. Talvez tenha apenas achado caro!

Agilidade no entremear uma história na outra, repórteres bem preparados, enfrentando com seriedade e respeito absoluto o tema proposto e, é claro, uma leve pitada de um humor de bom gosto no desempenho do humorista Léo Lins - tudo isso junto à bela e esclarecedora entrevista de Rafinha Bastos com o deputado Jean Wyllys. Um ótimo programa. "A Liga", terças-feiras, 22h, na Band.

Quem ainda não se ligou, se liga!


COMENTÁRIO - Por Fernando Cordeiro.

Resolvi postar este texto do Renato Kramer, da Folha.com, pois ultimamente só tenho visto críticas (com razão) sobre a programação em tv aberta no Brasil. Porém, ainda existem (poucas) boas opções de conteúdo útil para assistirmos. E é o caso de "A Liga".

Este programa, que aborda assuntos polêmicos, coloca os repórteres vivendo as situações que são mostradas, e o telespectador praticamente se sente também no ambiente mostrado. E um desses repórteres é o tão criticado Rafinha Bastos. Ele está sendo massacrado demais por causa de uma piada, mas é difícil achar algum comentário elogiando o humorista/jornalista quando ele faz um bom trabalho na TV.

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